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Quando inibir KRAS não é suficiente: novas evidências sobre resistência adaptativa e terapias combinadas no câncer de pâncreas


O adenocarcinoma ductal pancreático permanece como uma das neoplasias sólidas de pior prognóstico, com sobrevida global em cinco anos inferior a 15%, mesmo em cenários de diagnóstico precoce. Esse comportamento agressivo não decorre apenas do diagnóstico tardio, mas de uma biologia tumoral profundamente resiliente, sustentada por uma rede altamente redundante de sinalização oncogênica, estroma desmoplásico denso e intensa heterogeneidade celular. O artigo recentemente publicado que foi amplamente celebrado na última semana parte desse contexto crítico para questionar um dogma ainda persistente na oncologia de precisão: a crença de que o bloqueio de um único alvo molecular central, como KRAS, seria suficiente para gerar respostas terapêuticas duráveis. Ao invés disso, os autores tratam o adenocarcinoma ductal pancreático como um sistema adaptativo complexo, capaz de reorganizar rapidamente suas vias de sobrevivência frente a pressões farmacológicas, o que exige estratégias terapêuticas igualmente sistêmicas e integradas.


Confira os comentários da farmacêutica Milena Cabral, que integra o time de professores da nossa Pós Graduação de Farmácia em Oncologia:




É fundamental interpretar os resultados desse estudo com cautela, uma vez que toda a evidência apresentada deriva de modelos murinos, que, embora indispensáveis para validação mecanística, historicamente apresentam baixa taxa de conversão translacional. Dados consolidados da literatura indicam que apenas cerca de 30 a 50% das intervenções com resultados positivos em animais avançam para estudos clínicos em humanos, menos de 10% alcançam fases clínicas avançadas, e aproximadamente 5% ou menos culminam em aprovação regulatória como terapias disponíveis para uso clínico. Esse gargalo reflete diferenças profundas entre espécies em termos de farmacocinética, toxicidade sistêmica, complexidade do microambiente tumoral e heterogeneidade biológica humana, além de exigências regulatórias rigorosas que envolvem sucessivas fases de ensaios clínicos para demonstrar segurança, eficácia e benefício clínico real. Assim, embora os achados pré-clínicos descritos sejam mecanisticamente sofisticados e conceitualmente inovadores, eles representam apenas um primeiro degrau em um percurso longo, custoso e altamente seletivo até eventual incorporação terapêutica, reforçando que entusiasmo científico deve caminhar lado a lado com prudência translacional.


O que a dependência quase universal de KRAS revela sobre a biologia tumoral pancreática?


Cerca de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático apresentam mutações ativadoras em KRAS, geralmente nos códons G12D, G12V ou G12R, tornando essa oncoproteína um motor central da tumorigênese pancreática. No entanto, o artigo demonstra de forma convincente que KRAS não atua de maneira isolada, mas como um nó hierárquico dentro de uma rede de sinalização altamente interconectada, que inclui receptores tirosina-quinase, vias inflamatórias e fatores de transcrição pró-sobrevivência. A inibição direta de KRAS, embora necessária, mostrou-se insuficiente quando aplicada isoladamente, pois desencadeia mecanismos compensatórios previsíveis, sobretudo a hiperativação de EGFR e STAT3. Essa observação reforça uma leitura mais madura da oncologia molecular, na qual a relevância de um alvo não se mede apenas por sua frequência mutacional, mas por sua capacidade de ser funcionalmente isolado dentro da arquitetura de sinalização tumoral.


Por que a ativação compensatória de EGFR e STAT3 é tão relevante no adenocarcinoma ductal pancreático?


O estudo explora com profundidade a forma como o bloqueio de KRAS induz uma resposta adaptativa imediata, caracterizada pela ativação de EGFR e pela fosforilação sustentada de STAT3. Esses dois eixos não apenas restauram sinais proliferativos e antiapoptóticos, como também reforçam a interação tumor-estroma e a manutenção de um microambiente inflamatório permissivo à progressão tumoral. STAT3, em particular, atua como um integrador de sinais oncogênicos e inflamatórios, promovendo transcrição de genes associados à sobrevivência celular, evasão imune e resistência terapêutica. O artigo evidencia que a falha histórica de terapias anti-KRAS não reside apenas na potência dos inibidores, mas na incapacidade de suprimir essas rotas de escape, que são rapidamente recrutadas quando o eixo principal é interrompido.



Como a combinação tripla proposta altera o paradigma terapêutico no câncer de pâncreas?


A inovação central do trabalho está na combinação racional de três agentes que atuam em pontos estratégicos distintos da rede oncogênica: um inibidor direto de KRAS, um inibidor pan-ERBB e um degradador de STAT3. Diferentemente de abordagens empíricas de combinação, essa estratégia foi construída a partir de mapeamento funcional das vias de escape, o que confere coerência mecanística ao esquema terapêutico. Nos modelos pré-clínicos avaliados, incluindo tumores ortotópicos e xenotransplantes derivados de pacientes, essa combinação não apenas reduziu o volume tumoral, mas promoveu regressões completas e sustentadas, sem evidência de recorrência mesmo após longos períodos de seguimento. Esse achado é particularmente relevante no adenocarcinoma ductal pancreático, em que respostas completas são extremamente raras, mesmo em ambientes experimentais controlados.


O que significa "observar ausência de resistência adquirida em longo prazo"?


Um dos aspectos mais provocativos do artigo é a ausência de resistência adquirida após mais de 200 dias de observação pós-tratamento, um resultado que desafia diretamente o padrão observado na maioria das terapias-alvo. Em tumores sólidos, a emergência de clones resistentes costuma ser quase inevitável, impulsionada por instabilidade genômica e plasticidade fenotípica. O fato de a combinação proposta ter suprimido de maneira duradoura essas adaptações sugere que o bloqueio simultâneo de KRAS, EGFR e STAT3 pode colapsar de forma crítica a capacidade adaptativa do adenocarcinoma ductal pancreático. Não se trata apenas de maior intensidade terapêutica, mas de uma interrupção coordenada dos circuitos que permitem ao tumor reorganizar sua sinalização frente ao estresse farmacológico.



Quais são as implicações translacionais reais dessa estratégia combinada?


Apesar dos resultados impressionantes, o artigo não ignora os desafios de transposição clínica. A utilização simultânea de três agentes com perfis farmacológicos distintos levanta questões importantes sobre toxicidade cumulativa, interações medicamentosas e janela terapêutica em humanos. Além disso, o microambiente tumoral pancreático humano, marcado por hipovascularização e estroma fibroso denso, pode limitar a penetração e distribuição dos fármacos de forma diferente do observado em modelos murinos. Ainda assim, o estudo estabelece uma base conceitual sólida para o desenho de ensaios clínicos mais sofisticados, nos quais a combinação não é apenas tolerada, mas biologicamente justificada desde o início.


Por que esse trabalho representa mais do que um avanço incremental?


O mérito do artigo não está apenas nos resultados quantitativos, mas na mudança de mentalidade que propõe. Em vez de buscar o “alvo perfeito”, os autores tratam o câncer como um sistema adaptativo complexo, que exige intervenções igualmente complexas e coordenadas. Essa abordagem rompe com a lógica reducionista que dominou a oncologia de precisão por décadas e aproxima o campo de uma visão mais sistêmica da biologia tumoral. Para tumores como o adenocarcinoma ductal pancreático, historicamente refratários à maioria das estratégias terapêuticas, essa mudança conceitual pode ser mais relevante do que qualquer novo fármaco isolado.


Esse modelo de bloqueio de rede pode ser extrapolado para outros tumores sólidos?


Embora focado no adenocarcinoma ductal pancreático, o racional apresentado no artigo tem implicações mais amplas para outros tumores sólidos dependentes de KRAS ou de vias inflamatórias associadas. Neoplasias colorretais, pulmonares e até algumas variantes de câncer gástrico compartilham características de redundância de sinalização semelhantes, o que sugere que estratégias de bloqueio coordenado de nós críticos podem ser adaptadas a outros contextos oncológicos. Assim, o estudo não apenas avança o campo do adenocarcinoma ductal pancreático, mas contribui para uma reflexão mais ampla sobre como desenhar terapias verdadeiramente capazes de antecipar e neutralizar a resistência tumoral.





Referências:

Liaki V. et al. A targeted combination therapy achieves effective pancreatic cancer regression and prevents tumor resistance. Proc Natl Acad Sci U S A. 2025 Dec 9;122(49):e2523039122. doi: 10.1073/pnas.2523039122. Epub 2025 Dec 2. PMID: 41329731; PMCID: PMC12704802.. Acesso em 03 fev. 2026.


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